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Warburg e Renascimentos
Algumas palavras a respeito da relação entre Burckhardt e Wölfflin
Jacob Burckhardt com a pasta azul contendo as ilustrações utilizadas nos cursos de história da arte
(10 de maio de 1888).
O contato entre Jacob Burckhardt (1838-1897) e Heinrich Wölfflin (1864-1945) tem início em 1882, quando Wölfflin transfere-se de Winterthur (cantão de Zurique) a Basiléia, para iniciar os estudos acadêmicos. Em Basiléia, Wölfflin encontra Burckhardt, que naquele momento desempenhava a dupla tarefa de professor de História e de História da Arte na universidade local. Wölfflin narra, numa conferência, suas impressões das aulas e do primeiro encontro com o professor, que o atende na solicitação de uma conversa particular. As primeiras orientações ao jovem aluno, numa caminhada pela praça da Catedral de Basiléia:
Independente do que você estude, procure em primeiro lugar uma formação harmônica. Dedique a metade de seu tempo à leitura dos autores antigos. Não leia nenhum livro sem fazer um resumo. Porém, detenha-se principalmente sobre as fontes, das quais sempre se tira proveito. O essencial na vida é a satisfação do trabalho diário. Há que ter uma tarefa cotidiana para estar contente. (Wölfflin, 1988, p. 179)
The contact between Jacob Burckhardt (1838–1897) and Heinrich Wölfflin (1864–1945) began in 1882, when Wölfflin moved from Winterthur (in the canton of Zurich) to Basel to begin his academic studies. In Basel, Wölfflin met Burckhardt, who at the time held a dual position as professor of History and Art History at the local university. In a lecture, Wölfflin recounts his impressions of Burckhardt’s classes and of their first meeting, during which the professor agreed to his request for a private conversation. The first pieces of advice given to the young student, during a walk through the Cathedral Square in Basel, were as follows:
Regardless of what you study, seek first and foremost a well-rounded education. Dedicate half of your time to reading the ancient authors. Do not read any book without writing a summary of it. However, focus especially on the sources, from which one always gains something. What matters most in life is the satisfaction of daily work. One must have a daily task in order to be content. (Wölfflin, 1988, p. 179)
Jacob Burckhardt em 1892.
Universidade de Basiléia nos anos 1860-1870.
Depois de um período de estudos em Berlim e Munique, onde defende sua tese, e de uma estadia em Roma, Wölfflin publica em 1888, Renascimento e Barroco, livro que recebe de Burckhardt um comentário elogioso, em tom professoral: “conserve sua simplicidade” (Wölfflin, 1988, p. 151). Quando Burckhardt se aposenta do ensino de história da arte, em Basiléia, no ano de 1893, é Wölfflin quem o substitui, ocupando a cátedra até 1901. Entretanto, no momento em que preparava A Arte Clássica, editado em 1899, escreve a Burckhardt, que lhe responde numa carta de 29 de agosto de 1896:
O que se pode dizer?
Dada a minha total falta de inclinações filosóficas e a minha ideia muito vaga de “estilo clássico”? (Burckhardt, 1964, p. 477)
After a period of study in Berlin and Munich, where he defended his thesis, and a stay in Rome, Wölfflin published Renaissance and Baroque in 1888, a book that received praise from Burckhardt in a professorial tone: “maintain your simplicity” (Wölfflin, 1988, p. 151). When Burckhardt retired from teaching art history in Basel in 1893, it was Wölfflin who succeeded him, holding the chair until 1901. However, while preparing Classic Art, published in 1899, he wrote to Burckhardt, who replied in a letter dated August 29, 1896:
What can one say?
Given my total lack of philosophical inclinations and my very vague idea of ‘classical style’? (Burckhardt, 1964, p. 477)
Jacob Burckhardt atravessando a praça da catedral de Basiléia para ministrar aula no curso de história da arte (1888).
Gabinete de trabalho de Jacob Burckhardt em sua terceira residência em Basiléia (1892-1897).
Havia uma ponta de ironia no comentário de Burckhardt, que refletia seu desacordo com o princípio de abordagem histórico-artística que Wölfflin apresentara já em 1885, quando estudava em Munique, numa carta a seus familiares, ao afirmar seu projeto de abordar a história da arte de “maneira filosófica”. Um ano depois, ele apresentaria a tese na Universidade de Munique: Prolegômenos sobre uma psicologia da arquitetura. As teorias da visualidade, que já se apresentavam aqui, e se fariam presentes em seus estudos posteriores, eram certamente elementos alheios ao autor do Cicerone. Ao mesmo tempo, há passagens em que Wölfflin, ele próprio, expressa suas diferenças em relação à história da arte de Burckhardt. Numa ocasião, ao mencionar a síntese histórica de Burckhardt sobre o Renascimento italiano, ele afirmou: “é vão buscar nele uma definição do estilo renascentista” (Wölfflin, 1988, p. 151). Em outra ocasião, desta vez numa conferência sobre o Burckhardt historiador da arte, Wölfflin, ao tratar os ensaios postumamente editados como Contribuições à história da arte na Itália (Beiträg zur Kunstgeschichte von Italien), afirma:
Estas publicações póstumas foram recebidas com o devido respeito, ainda que no fundo tenham causado certa decepção. Depois de tudo o que as havia precedido, esperava-se algo maior, mais ambicioso, e não semelhante obra fragmentada. (Wölfflin, 1988, p. 167)
There was a hint of irony in Burckhardt’s remark, reflecting his disagreement with the principle of art-historical approach that Wölfflin had already presented in 1885, while studying in Munich, in a letter to his family, when he stated his intention to approach the history of art “in a philosophical manner.” A year later, he would present his thesis at the University of Munich: Prolegomena to a Psychology of Architecture. The theories of visuality, which were already emerging at this point and would become central to his later studies, were certainly foreign to the author of The Cicerone. At the same time, there are passages in which Wölfflin himself expresses his differences with Burckhardt’s art history. On one occasion, referring to Burckhardt’s historical synthesis of the Italian Renaissance, he stated: “it is futile to seek in it a definition of Renaissance style” (Wölfflin, 1988, p. 151). On another occasion, this time in a lecture on Burckhardt as art historian, Wölfflin, referring to the posthumously published essays Contributions to the History of Art in Italy (Beiträge zur Kunstgeschichte von Italien), remarked:
These posthumous publications were received with due respect, although they ultimately caused a certain disappointment. After everything that had come before, something greater, more ambitious, was expected—not such a fragmented work. (Wölfflin, 1988, p. 167).
Heinrich Wölfflin.
Wölfflin referia-se ao mesmo livro que, anos antes, havia impactado positivamente Aby Warburg (1866-1929) de modo definitivo. Esta opinião de Wölfflin se faria presente ainda quando da apresentação dos escritos histórico-artísticos na edição do 6º volume das Obras Completas de Burckhardt, em 1932 (Gesamtausgabe, Band 6). E, desta vez, sua opinião pesara por décadas como uma condenação sobre os estudos burckhardtianos a respeito da arte italiana do Renascimento.
Wölfflin was referring to the very same book that, years earlier, had made a lasting and decisive impression on Aby Warburg (1866–1929). Wölfflin’s opinion would resurface once more in the presentation of Burckhardt’s art-historical writings in the sixth volume of the Complete Works (Gesamtausgabe, Band 6), published in 1932. This time, his judgment would carry weight for decades, effectively casting a shadow of condemnation over Burckhardt’s studies on Italian Renaissance art.
Cássio Fernandes
Universidade Federal de São Paulo
31 de março de 2025
BURCKHARDT, Jacob. Briefe. Ausgewählt und Herausgegeben von Max Burckhardt. Birsfelden-Basel: Verlag Chilibli-Doppler, 1964.
BURCKHARDT, Jacob. Gesamtausgabe. Sechster Band. Die Kunst der Renaissance in Italien. (Herausgeber: Heinrich Wölfflin). Stuttgart, Berlin und Leipzig: Deutsche Verlags-Anstalt, 1932.
BURCKHARDT, Jacob. Beiträg zur Kunstgeschichte von Italien. Basel: Verlag von G.F. Lendorff, 1898.
WÖFFLIN, Heinrich. Reflexiones sobre la Historia del Arte. Barcelona: Ediciones Peninsula, 1988.
WÖLFFLIN, Heinrich. Renaissance und Barock: Eine Untersuchung über Wesen und Entstehung des Barockstils in Italien. München, 1888
WÖLFFLIN, Heinrich. Die klassische Kunst: eine Einführung in die italienische Renaissance. München: Verlagsanstalt F. Bruckmann A. G., 1899.