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Warburg e Renascimentos
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A Dama e o Ouriço-Terrestre: uma pintura no Brasil do século XVIII
Leia aqui a versão em inglês / Read here the English version
Nota editorial: Este texto foi publicado em duas partes. A presente publicação corresponde à segunda parte; a primeira foi disponibilizada na atualização anterior do blog. Leia aqui.
Na pintura no Brasil do período colonial, mais precisamente na segunda metade do século XVIII, temos pelo menos quatro exemplos de representações dos Cinco Sentidos, incluindo o Tato. O primeiro caso se refere a azulejos (1745-1755 c.) do claustro do Convento de São Francisco em Salvador (Flexor, 2010; Maia, 1990). No andar superior do edifício, encontra-se um dos mais importantes conjuntos de azulejaria da arte portuguesa transportada para o Brasil, de Valentim de Almeida, objeto de diversos estudos e indagações: a representação dos Cinco Sentidos como alegorias femininas. O Tato é representado como uma jovem a afagar um cãozinho que leva entre os braços; na base da imagem encontramos o verbo Apalpar [figura 18].
Figura 18. Tato (apalpar) da série de Cinco Sentidos. Azulejos portugueses (1745-1755c.) Claustro Superior Convento de São Francisco en Salvador, Brasil. Valentim de Almeida (1692-1779).
Na Casa de Padre Toledo, em Tiradentes, Minas Gerais, podemos ver também representações alegóricas dos Cinco Sentidos como casais galantes e mitológicos, provenientes de modelos gráficos europeus e de porcelanas chinesas (Andrade e Giovannini, 2024) [Figura 19]. O Tato, no painel central, é Hermes ou Mercúrio e Vênus ou Afrodite, que enfatizam o gesto do toque das mãos [Figura 20].
Figura 19. Alegoria dos cinco sentidos. Pintor não identificado, 2ª metade sećulo XVIII. Pintura a têmpera e cola sobre madeira, teto salão principal, Casa de Padre Toledo. Tiradentes – MG.
Figura 20. Autor não identificado. Tato (det.) Os Cinco Sentidos. 2ª. met. Século XVIII. Pintura a têmpera e cola sobre madeira. Casa de Padre Toledo. Salão Principal. Tiradentes, MG. Foto: A. Brandão.
No teto pintado numa residência no século XVIII, que hoje se encontra deslocado para o Museu Regional de São João del Rei, contendo uma representação laica dos Cinco Sentidos, inspirada em gravuras populares holandesas (apud. Andrade), o Tato é uma mulher vestida com trajes da época que afaga dois pássaros, dois pombos brancos [Figura 21].
Figura 21. Tato entre os Cinco Sentidos.Teto, pintura sobre madera. Pintor desconhecido. Segunda metade século XVIII. Deslocado para Museu Regional de São João del Rei, Minas Gerais, Brasil.
Mas gostaríamos de olhar especialmente o exemplo da Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, onde os Cinco Sentidos são alegorias femininas associadas às Cinco Chagas de Cristo e às Três Virtudes Teologais, no teto da Sacristia, com pinturas da segunda metade do século XVIII [Figura 22]. Aqui uma jovem afaga um ouriço-terrestre [Figura 23]. Enquanto os exemplos do teto do Museu Regional de São João del Rei e do teto da Casa de Padre Toledo, em Tiradentes, podem ser consideradas alegorias dos Cinco Sentidos relacionadas a um contexto laico, pese o fato de que no segundo caso o morador era um padre, inconfidente, ligado à cultura libertina e ao pensamento iluminista; as Alegorias de Conceição do Mato Dentro estão no espaço sagrado de uma Sacristia com a presença de um Sacrário.
Figura 22. Sacristia Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, Brasil. Segunda metade século XVIII. Têmpera sobre madeira. Caetano Luiz de Miranda o Silvestre de Almeida Lopes (atr.)
Figura 23. Autor desconhecido. Tato, Det.Alegorias Femininas dos Cinco Sentidos. 2ª. Met. Séc. XVIII. Pintura a Têmpera sobre madeira. Teto da Sacristia da Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Conceição do Mato Dentro – MG. Fotos A. Brandão.
Ao contrário das Alegorias do Olfato e da Visão [Figuras 24 e 25], representadas no mesmo teto – que usam vestidos camisa ou camisolas, a Alegoria feminina do Tato tem um vestido mais pesado que lhe recobre quase todo corpo, embora também vestida com trajes de final do século XVIII, que pode ser observado pelo corte abaixo dos seios, e com penteado ainda empoado à moda do Antigo Regime. Acaricia, delicadamente, um pequeno porco-espinho que traz no colo [Figura 26]. A delicadeza das mãos causa contraste e estranhamento diante dos espinhos do ouriço-terrestre. Este animal, o Erinaceus europaeus, embora comum na fauna dos países da Europa e abundante em Portugal, inexiste no território brasileiro. Trata-se certamente, como costumava ocorrer, de uma transposição à guisa de cópia de um modelo gráfico – normalmente uma gravura – utilizada pelo pintor como referência, embora não tenhamos localizado o ouriço terrestre em nenhuma gravura relativa ao Tato até o momento mesmo depois de analisar centenas de exemplos em diferentes coleções [Figura 27]. Segundo Warwick (2020), os ouriços não se apresentaram como uma espécie particularmente valorizada nas representações artísticas, embora fizessem parte do cotidiano e do imaginário dos europeus.
Figuras 24 e 25. Olfato e Visão. Sacristia Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, Brasil. Segunda metade século XVIII. Têmpera sobre madeira. Caetano Luiz de Miranda o Silvestre de Almeida Lopes (atr.)
Figura 26. Detalhe, Tato. Sacristia Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, Brasil. Segunda metade século XVIII. Têmpera sobre madeira. Caetano Luiz de Miranda o Silvestre de Almeida Lopes (atr.)
Figura 27. Alegoria do Verão. Aestas Cereris Estações do ano Gravura de Crispijn de Passe the Elder A partir de Maarten de Vos Publicado por Crispijn de Passe the Elder Dutch,1600 (circa) 18,3 x 21,7 cm.
De modo geral, os animais, na arte do Brasil Colonial, eram comumente representados por nossos artífices de modo esquemático (o leão de Daniel, a baleia de Jonas), sem interesses ou intenções realistas. Os ouriços, como símbolos, podem representar, em jogo interpretativo, a fartura ou a Gula – porque se supunha que rolavam sobre as frutas maduras para que fossem fincadas em seu corpo para consumi-las depois (Warwick, 2020), mas também a capacidade de defesa e proteção, por se enrolar sobre o próprio corpo quando ameaçados.
Teologicamente, a combinação entre o tema dos Cinco Sentidos e as Cinco Chagas de Cristo, sendo a Alegoria Feminina uma personagem que afaga um ouriço terrestre, nos permite supor que o Tato esteja associado ao sofrimento de Cristo e aos símbolos da Paixão ali representados, como a coroa de espinhos, pregos da cruz e a lança do golpe de misericórdia. Esta Alegoria do Tato está ao lado de outra, representando a Caridade, juntamente com os símbolos do martelo e turquês. Segundo Warwick (2020), entretanto, o ouriço terrestre fornece um referencial importante para as religiões fundamentadas na ideia de ressurreição: é um animal que hiberna.
Para além do exercício espiritual, os Cinco Sentidos ganharam novos valores na cultura mundana do rococó. Muitos espaços foram transformados com intuito de estimular os sentidos, essenciais para a sensibilidade libertina. As decorações voltaram-se para estímulos sensoriais, como parte da experiência de sociabilidade – do boudoir à sala de jantares, da alcova aos jardins – para sediar os prazeres, mediados pelos sentidos. Houve, portanto, um processo de domesticação no que se refere ao “confinamento” das experiências sensoriais (Delon, 2000 apud Marques, 2015, p. 99, 101, 220, 136).
O Tratado das Sensações de 1745, reeditado em 1798, foi considerado, entre os escritos do Abade de Condillac, o mais importante e responsável pelo sucesso do autor. Há referências às obras de Condillac, assim como de Rousseau, nas bibliotecas em Minas Gerais do século XVIII, como pode ser verificado a partir de inventários de morte e nos Autos da Devassa. As ideias de Condillac foram discutidas, segundo Poivet, pelos homens de seu tempo com enorme vivacidade e talvez tenham atravessado o pensamento de diferentes leitores no Brasil Setecentista. Emprestando de Locke o princípio de que todo conhecimento vem dos Sentidos, Condillac apresentou a teoria de que recebemos da natureza nossos sentidos e aprendemos a utilizá-los: aprendemos a ver, sentir, ouvir, saborear e tocar.
Contudo, especialmente nos interessa o livro do Padre Balthazar da Encarnação Cidade da Consciencia em cinco discursos pelos cinco sentidos, publicado em 1700. Gandra (2004) já bem observou a relação deste livro com as pinturas da Sacristia de Nossa Senhora da Conceição em Conceição do Mato Dentro. Balthazar da Encarnação advertia, em sua “Instrução”, que os Cinco Sentidos são as Cinco Portas da Cidade da Consciência “por onde a alma se capacita para gozar das delícias deste paraíso terrestre, para que por estas coisas, que conhece, forme algum conceito das Celestes, que ignora (...) (Encarnação, 1700)”. Em cada capítulo, Balthazar examina um dos Cinco Sentidos, dedicando, portanto, um deles ao Tato.
A Alegoria Feminina do Tato (nossa Dama e o Ouriço-Terrestre) faz parte de um conjunto de pinturas, datadas da segunda metade do século XVIII, no teto da sacristia da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais. Embora compreendida em seu contexto, como elemento de uma iconografia que associa os Cinco Sentidos às Cinco Chagas de Cristo e aos símbolos da Paixão, a jovem que acaricia um ouriço-terrestre não deixa de suscitar outras interpretações. Trata-se apenas de uma afirmação religiosa do Tato como forma tátil de compreender a dor de Cristo coroado com espinhos e pregado na Cruz e sua ressurreição; ou poderíamos supor outras mensagens ali entrecruzadas, como um convite doloroso/prazeroso às sensações?
Angela Brandão
Universidade Federal de São Paulo
CNPq
23 de fevereiro de 2025
*Este trabalho é resultado de pesquisa desenvolvida com apoio do CNPq – Bolsa de Produtividade em Pesquisa.
FLEXOR, Maria Helena. Religiosidade e Sensualidade: A Baía no século XVIII. In: SILVA, Maria Beatriz Nizza da (org.). Sexualidade, Família e Religião na Colonização do Brasil. Lisboa: Livros Horizonte, 2001, pp. 291-302.
FLEXOR, Maria Helena. Igrejas e Conventos da Bahia. Brasília: Programa Monumenta, Iphan, 2010. Pp. 37-69.
GANDRA, Manuel J. Reflexões Em Torno Do Programa Iconográfico-Iconológico Da Igreja Matriz Conceição Do Mato Dentro in Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição Símbolo de Cultura, História e Fé. Fundação Casa de Cultura: Conceição do Mato Dentro, 2015. Capítulo 4, pp. 263-312.
LOYOLA, Inácio de. Exercícios Espirituais. São Paulo, Loyola, 2002.
MARTINS DE ANDRADE, L.; BRAGA GIOVANNINI, L. Da porcelana chinesa à pintura do Rio das Mortes, Minas Gerais. Quiroga. Revista de patrimonio iberoamericano, [S. l.], n. 23, p. 40–53, 2024. DOI: 10.30827/quiroga.v0i23.0002. Disponível em: https://revistaseug.ugr.es/index.php/quiroga/article/view/30243. Acesso em: 5 ene. 2026.
PIFANO, Raquel Quinet de Andrade. Os “cinco sentidos” ou o domínio das paixões in A Arte da Pintura: Prescrições Humanistas e Tridentinas na Pintura Colonial Mineira Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito para obtenção de grau de Doutor em História e Crítica da Arte. Orientadora: Prof.ª Dr. Sônia Gomes Pereira. Ano 2008.
CAMPOS, MARIA DA CONCEIÇÃO. Do visível ao Invisível - A teoria da visão no Comentário aos três livros 'Da Alma' do Curso Jesuíta Conimbricense (1598) Dissertação de doutoramento em Filosofia, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação do Prof. Doutor José Francisco Meirinhos. Faculdade de Letras 2 de novembro de 2012.
ENCARNAÇÃO, P. Balthazar da. Cidade da Consciencia em cinco discursos pelos cinco sentidos. Lisboa, 1700.
EQUÍCOLA, Mario. Libro de Natura de Amore. [s.l.] [s.ed.] 1525.
MAIA, Pedro Moacir. Os Cinco Sentidos, os trabalhos dos meses e as quatro partes do mundo em painéis de azulejos no Convento de São Francisco em Salvador. Bahia. Composto Impresso Centro Gráfico do Senado Federal, 1990.